quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Vivenciando os mitos de Aset

Eu já mencionei algumas vezes sobre como tenho vivenciado os mitos de Aset desde que escolhi me consagrar a Ela.

Alguns sabem que eu estive seis meses na Bélgica e voltei recentemente. Pois é, essa estadia trouxe mais vivências desse mito. Eu estava esperando voltar pra compartilhar depois de compreender pelo menos boa parte dele. Queria escrever de forma poética, mas não sei se vai dar certo. Tentemos.

Comecemos com um pequeno fato: eu fui pra Bélgica sozinha. Meu noivo ficou em Brasília, uma decisão tomada por nós dois porque percebemos que seria melhor para nós individualmente e não faria ninguém se arrepender de más escolhas. Foi um voto de confiança no nosso relacionamento, também, porque sabíamos que não seria fácil.

Então parti para Bruxelas. Tive alguns problemas no começo: aluguei um apartamento antes de ir, cheguei lá e não tinha apartamento nenhum. Pois é, sofri um golpe. Já tinha ido pra lá numa tristeza muito grande de deixar minha casa, meu noivo, meus gatos, meus amigos e família aqui, cheguei lá nesse choque. Mas ok, dos males o menor: perdi uma grana, mas tive ajuda de duas pessoas que me acolheram em casa até eu achar um lugar pra mim - o que demorou só uma semana. Achei um lugar bem bacana, no final das contas, a dois minutos do metrô, bem perto da faculdade, para onde eu fui todos os dias. Dividi o apartamento com uma moça.

Os primeiros três meses lá foram até tranquilos. Viajei bastante, conheci alguns lugares ao redor, me aproximei de algumas pessoas, fiz amizades. Mas é claro que a saudade batia cada vez mais forte.

Então, finalmente, em maio, meu Amor foi me visitar! Vivemos uma Lua de Mel. Viajamos por ali, conhecemos lugares juntos, matamos as saudades. Ele ficou quinze dias comigo e foi embora.

Esse foi o marco de duas fases diferentes dessa viagem, pra mim. Depois que ele foi embora eu fiquei mais sozinha. Já não viajei tanto, porque não tinha tanta companhia. O pessoal do laboratório não saiu tanto juntos (cada um tem sua vida pessoal, afinal). As coisas começaram a ficar esquisitas com a menina com quem eu estava morando, cada vez menos comunicação. 

Em junho eu descobri que estava grávida e, ao mesmo tempo em que isso foi uma emoção enorme que me deixou muito feliz, eu não tinha ninguém próximo pra compartilhar essa felicidade. Dei a notícia pra todo mundo pela internet. As únicas pessoa que eu vi (via Skype) quando contei foram meus pais e meu irmão. O pai do bebê soube pelo telefone, mas nós dois estávamos em locais onde não dava pra ligar a câmera. Então, toda a emoção foi praticamente via Whatsapp com os amigos próximos e a família. O pessoal de Bruxelas deu apoio, mostrou preocupação, mas não era a mesma coisa. Eu recebi um único abraço pela notícia lá.

Quando descobri a gravidez, eu percebi algumas conexões das coisas que eu vivi com os mitos de Aset: Após a primeira morte de Wesir, ela ficou buscando por ele um tempo. Quando ela o encontrou, ela trouxe a vida pro corpo dele para gerar Heru. E logo depois, Set foi lá e esquartejou Wesir.

Comigo, felizmente, foi um pouco mais tranquilo - a morte de Wesir foi representada pela nossa distância: o fato de termos ficado longe, nos encontrado, concebido um bebê e ele ter ido embora de novo. E eu agradeci muito a Aset por isso. Ela mesma disse: "melhor viver o mito dessa forma, não é?"

É, é sim, com certeza!




Mas eu ainda precisava viver o luto. Aset foi gentil de manter meu Amor comigo, mas no final das contas, eu precisava entender o que significava a perda súbita de alguém querido.

E então eu recebi a notícia da morte do meu primo por acidente de moto. E lá estava eu, na Bélgica, sozinha, enquanto a minha família toda se reuniu para velar o meu primo. Todo mundo se deu força e eu não pude estar presente. Vivi o luto sozinha, como Aset.

Quando Wesir morreu, Aset foi presa por Set. Durante sua gravidez, ela esteve na prisão, tecendo o enxoval e as bênçãos de seu filho. Ela escapou da prisão com a ajuda de Djehuty, Maat e Seshat, quando estava prestes a dar à luz.

Eu, felizmente, não fiquei lá até o final da gravidez. Eu só precisava viver um pedacinho disso para entender o que Aset sentiu. Eu fui me sentindo cada vez mais sozinha, até chegar um momento em que eu estava contando os dias pra voltar pra casa. E nos últimos cinco dias antes de ir embora, eu tive uma briga muito feia com a menina com quem eu morei. Viajei na quarta. No sábado, passei o dia longe e, quando cheguei em casa, me tranquei no quarto para não encontrar com ela. No domingo, ela fechou todas as portas da casa para evitar contato. Na segunda-feira, tivemos uma discussão ridícula (em todos os sentidos) por mensagem (pq eu não queria olhar na cara dela). E nesses três dias, então, eu fiquei meio presa no meu quarto enquanto eu estava dentro de casa. Na terça, eu já tinha deixado tudo arrumado, e com a ajuda de dois amigos eu saí de lá e passei as últimas horas antes de ir embora longe daquela prisão ridícula, na casa desses amigos (que me ajudaram e me apoiaram muitas outras vezes lá).

Chegar a Brasília foi um alívio. Amigos e mãe me recebendo no aeroporto, família, finalmente abraços. Mas eu ainda não vi o meu Amor, porque quando eu cheguei, ele é que estava viajando. Foram mais uns dias de saudade. O mais legal foi que, como três meses antes, quando ele foi me visitar, quando nos vimos foi como se não tivesse passado tempo nenhum.

É curioso como eu já pensei tantas vezes nessa vivência toda, comentei com algumas pessoas, mas escrever sobre ela trouxe toda a emoção de volta. É incrível perceber a profundidade de toda essa experiência, de como ela trouxe Aset pra mais perto de mim (afinal de contas, Ela sou eu, e eu sou Ela). Escrever essa vivência me trouxe toda a tristeza de novo, toda a solidão, todo o Amor, toda a saudade. Mas também trouxe toda a gratidão por tudo que eu tenho, pelo Amor na minha vida, por esse bebê que cresce em meu ventre (e bem, ser Mãe faz parte da vivência para me consagrar a Ela, que é uma Mãe por excelência).

A Aset, então, eu ofereço a dor que eu senti, a solidão, a sensação de prisão. Eu compartilho a Sua dor, Mãe, e sei que ela te fez mais forte, assim como a minha dor me fez mais forte. Eu ofereço todo o Amor em minha vida, toda a alegria da minha volta, a valorização daquilo que é precioso pra mim.



A Aset, todas as coisas belas e puras.

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