No
princípio, tudo era apenas o Caos. Atum, a serpente ourobórica, girava sozinha
no eterno vazio. Tudo era apenas trevas, e o ser que era tudo o que existia
desejou companhia. E então a serpente primordial criou as águas sagradas, e tudo
passou a ser Água e Trevas. A serpente continuou a criar, e de sua mente que
tudo podia, surgiu a Luz; depois, criou-se a Magia, a Sabedoria, o Conhecimento
e a Verdade; a forma e a transformação.
E
então, a forma e a transformação deram origem aos ventos. Shu, Senhor do Ar, e
Tefnut, Senhora da Umidade, se uniram em Amor. E de seu Amor, deram origem a
novas criações, a Terra e o Céu.
Nut,
a Senhora da Noite, aurora e crepúsculo, se apaixonou por Geb, a força vital da
Terra. Eles se deitaram em um longo abraço que durou toda a eternidade. E como
tudo era feito em Amor, da união de Nut e Geb nasceram Rá, o Sol brilhante, e
Djehuty, a Lua prateada. E entre Nut e Geb, seus filhos conquistavam espaço no
mundo, girando ao redor e dentro dele.
Logo,
Nut estava novamente grávida; e na mesma medida em que seu ventre crescia,
também fazia o ciúme do Senhor do Sol. Rá, que não queria irmãos, ordenou que
Shu esguesse Nut, separando-a eternamente de seu Amor. E ele disse: ‘Eu
inventei o dia e a noite, medi a duração do ano e dos meses, e decreto que
nenhuma outra criança há de nascer em nenhum dos dias de meu ano.”
Rá,
sozinho, resolveu criar seus próprios seres, os homens e as mulheres. E os
filhos de Nut cresciam em seu ventre. Eles eram cinco: Aset, Senhora dos Dez
Mil Nomes; Wesir, o Rei; Heru, o mais velho; Nebet-het, Senhora das Sombras; e
Set, o guerreiro.
E as
eras se passaram, e as crianças cresceram no ventre de Nut. E a paixão e o
desejo cresceram com elas. Aset e Wesir se apaixonaram, e também Set e Nebet-het.
E eles se casaram ainda no ventre de sua mãe.
Enquanto
isso, Nut e Geb sofriam, e também os homens e mulheres na terra, que agora
estava infértil. Foi então que Djehuty decidiu interferir com sua sabedoria e
desafiou Rá em um jogo. Vitorioso, ele conseguiu ganhar de Rá cinco dias de sua
luz. E assim, os filhos de Nut finalmente puderam nascer, um em cada dia ganho
pelo sábio Deus da Lua.
O
primeiro foi Wesir, e com seu nascimento, a terra ficou fértil outra vez.
Heru-wer veio em seguida, criou asas, e seus pés jamais tocaram o chão. Logo
depois, Set nasceu com sede de vingança, vermelho e malformado. No quarto dia
nasceu Aset, e com ela brilhou uma estrela no céu. E Nebet-het nasceu no quinto
dia, em silêncio, mistério e escuridão.
E a
cada casal foi dada uma parte do Egito. Enquanto Wesir e Aset cuidavam das
terras negras do Nilo, Set e Nebet-het tinham domínio sobre todo o deserto
estéril.
Aset
e Wesir se amaram por oito mil anos. Envoltos no azul do céu, eles se
abraçaram, se beijaram e tudo compartilharam. E de seu amor, vários mundos
surgiram. Juntos, eles descobriram o poder da criação e da Magia. Juntos, eles
teceram a Vida.
Aset
ensinou às mulheres a arte de tecer e de cozinhar. Ela ensinou-lhes a trançar
os cabelos e se perfumar. Com Aset, as mulheres aprenderam a arte da dança e da
beleza e descobriram sua Deusa interior.
Wesir
ensinou aos homens sobre a terra, o cultivo do solo e o cuidado com os animais.
Ele lhes ensinou a plantar e a fazer e usar ferramentas. Ensinou-lhes a tocar a
flauta e o tambor. E também mostrou-lhes como construir seus lares e pescar os
peixes.
Enquanto
Aset e Wesir reinavam e Amor, Nebet-het invejava aquilo que ela não tinha com
seu consorte. E se vestiu e se pintou como sua irmã gêmea. Um dia, Wesir a
encontrou nos jardins e, sem perceber quem era, tomou-a nos braços como sua
esposa. Nebet-het, que tanto ansiava por aquele toque, não desfez o engano. E
assim, concebeu um filho de Wesir.
Nebet-het
escondeu sua gravidez e, no meio dos chacais do deserto, deu à luz sua criança.
E ela o deixou lá para que Set não os matasse. Aset, quando soube, procurou a
criança e a encontrou. E ela o chamou de Yinepu, e a partir de então, ele se
tornou seu companheiro e guardião.
Mas
o tempo foi passando, e Set odiava Wesir cada vez mais. Ele cobiçava a terra do
irmão e tudo que ele conquistara. Então, um dia, Set convidou Wesir para um
banquete. Ele teceu um baú e disse que seria dado àquele que ali coubesse.
Apenas Wesir coube perfeitamente e, quando entrou no baú, Set e seus companheiros
o lacraram lá dentro. E o baú foi jogado no rio e carregado pelas águas para
muito longe.
Aset
sentiu quando seu Amor se foi. E ela gritou, e chorou e chorou. Ela caminhou
por todos os lugares, pois nada mais importava a não ser encontrar Wesir. Depois
de muito andar e buscar, ela chegou a um reino distante e descobriu que o
caixão de seu amado era agora o pilar de um palácio. A Deusa usou seus poderes
e se disfarçou como serva no palácio, mas um dia foi descoberta e finalmente
conseguiu recuperar o caixão de Wesir.
A
Deusa reviveu seu Amor e dele concebeu um filho. Mas Set o encontrou novamente
e o cortou em pedaços, espalhando-os pelo rio. E Aset chorou mais uma vez.
Junto a Yinepu e Nebet-het, ela buscou as partes de seu Amor, construindo um
templo em cada local em que as encontrava. Eles encontraram todas as partes,
menos uma. Seu falo fora perdido para sempre, engolido por Sobek.
Unindo
todas as partes, os três Deuses embalsamaram Wesir, agora Senhor do Submundo.
E, após anos de guerra pelo trono, Set foi obrigado a aceitar que Heru, filho
de Aset, seria agora o rei do Egito.
(Aileen
Daw – 21/02/2012)